segunda-feira, 29 de outubro de 2012

A resposta ao sr.enfermeiro Pedro Marques


Eu esperei que alguém respondesse à carta, mas já vi que vou ter de ser eu. Então lá vai: 

São agora 22:17 aqui na terra do Zé Povinho, são 23:17 na terra do Zé Mourinho, 23:17 também na terra do Zé Sócrates e 22:17 na terra...do Pedro. Não está a ver quem é o Pedro? Eu passo a explicar. 

O jovem Pedro Marques, enfermeiro de 22 anos, partiu há exatamente 11 dias em direção a Londres. Até aqui tudo bem. O que não está nada bem foi o dramatismo todo que esteve na sua partida. O enfermeiro achou que ir embora juntamente com 20 e tal colegas era pouco, portanto decidiu chamar mais alguns para a sua partida. E não foram uns "alguns" quaisquer. Chamou o Presidente da República e toda a classe jornalística para ver se lhe davam umas caixas de lenços para a choradeira pegada e a algazarra que o nosso rapaz e os colegas  fizeram questão de protagonizar, na partida para Londres. Já não bastava o propósito da carta ser ridículo, uma vez que existem Pedros em situações muito piores , sem honras de notícia e sem  apoios, como ainda por cima  os jornalistas, sempre sedentos de notícias fáceis, foram a correr para acompanhar a ida do bravo Pedro. Mau demais.

Tudo isto começou  com uma carta toda pomposa enviada ao nosso PR, em que se despedia dele e do país. Como o nosso povinho come toda a porcaria que cheire a lágrimas e escândalo, fez o favor de por o texto a circular pelo Facebook. E de repente , o país estava a chorar a partida do nosso jovem "conquistador". "Coitadinho dele, que partiu para a miséria", devem pensar alguns. Eu elucido os mais distraídos. Este nosso conquistador  tem emprego garantido, salário muito mais alto que alguma vez ganharia em Portugal, casa, internet e voos low-cost entre Porto e Londres a 20 e poucos euros. Agora eu pergunto: era preciso tanta pieguice Pedro?

Estás bem instaladinho em casa, ligas o Skype e o Facebook e tens a família toda ali a dizer-te adeus. De mês a mês, metes-te no avião e vens cá ao Porto, ou pelo mesmo caminho tens aí a tua família. Pela Internet, tens notícias fresquinhas da tua cidade. E o que é que queres mais? Aposto que quando tomaste as vacinas ,em criança, fizeste uma birra menor. A única coisa de que te podes queixar é a temperatura. Aposto que uma manta e um casaco resolvem isso

Se achas que estou a ser duro demais contigo, deixa-me dar-te uma pequena lição de história. Não sou eu que digo, atenção, são os anos de história do teu país. Nas décadas de 60 e 70 saíram quase 350.000 pessoas do mesmo sítio que tu. Achas que perderam tempo com cartas de despedida? Achas que tinham emprego garantido e casa certa? Achas que alguém se importava com elas?  Achas que iam cómodas de avião para os locais de destino que, muitas vezes, eram bem mais longe do que Londres? Não, a resposta é não. 

Não dominavam a língua de lá e, muitas vezes, iam ser mão de obra indiferenciada. Esses sim eram mártires que partiam ao desconhecido. Estavam 10 e 20 anos sem ver a família e o país, para depois ter uma boa vida. E não fizeram metade do teu alarido. Se tu dizes que tens um pai emigrante, devias saber do que falo e não fazer essa choradeira toda. Ainda hoje farta-se de sair gente do nosso país e ninguém dá por ela. E vão para condições muito piores que as tuas, portanto não te queixes.

Se tu choras a partida e a "separação" do teu país, eu choro os meios de comunicação fracos que o nosso país tem e os seus ainda mais fracos critérios de noticiabilidade.

Desejo-te sorte e espero que te faças à vida. Faz-te homenzinho e deixa-te dessas mariquices das cartas. O nosso país já tem tanto lixo a passar na TV, que não precisa de mais. 

Ricardo Norton

2 comentários:

  1. A carta do Pedro estava muito bonita até ao ponto em que diz que «a culpa é de todos» e desculpa mesmo o pulha do Cavaco quando afirma «a culpa do país estar como está não é sua».
    Pois eu queria dizer ao Pedro Marques que eu não me incluo no "todos" dos responsáveis pelo estado da nação. Mas se ele sente essa culpa então o melhor que faz é emigrar e já agora, com o dinheirinho que amealhar lá fora, que pague "a minha parte da culpa", porque eu não sou culpado seja do que fôr. As palavras do Pedro, para mim, não passam de balidos de ovelha. Ele que emigre e que pague a austeridade que me impõem e sobre a qual eu não me sinto minimamente responsável. Ovelhas culpadas não fazem cá falta. Que encontre a felicidade lá no país que escolheu e não volte.
    Pessoas que escrevem estas palavras não deixam saudades. O melhor que fazem é abandonarem o país.
    God's speed, Pedro!

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  2. Parece que não sou o único que não se deixou levar pelas lágrimas de crocodilo do Pedro. Concordo com a sua opinião Auto. Vamos ver se os media voltam a dar notícias deste tipo...

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